(Monday 3rd of April 2017)
PSD quer alterar lei sobre base de dados de perfis de ADN
Username
Password
Banco genético da Justiça ganha velocidade
Wednesday 20th of June 2001
Author: Sara Dias Oliveira
Published in: Público

O Governo pode ter-se aproximado ontem mais um pouco da criação de um banco de dados para efeitos de identificação e investigação criminal. No debate em que colocou a questão de saber se a genética pode ser chamada a colaborar mais de perto com a Justiça não se ouviram grandes objecções do campo da Ética. Ficou por responder o problema jurídico: pode alguém ser obrigato a depositar a sua identidade neste banco? Para o Governo, que quer acabar o debate em curso até ao final da legislatura, a criação de uma base de dados genéticos de toda a população é, a prazo, "inexorável". Por Álvaro Vieira"Como é que a comunicação social vai contar o que se passou aqui? Como é que a opinião pública vai reagir?". Estas foram interrogações constantes ao longo do debate sobre a criação de um banco de dados de ADN para efeitos de identificação e investigação criminal, que ontem reuniu largas dezenas de especialistas na Universidade de Aveiro, entre representantes da Polícia Judiciária (PJ), juristas, cientistas, individualidades ligadas ao domínio da ética e governantes. Denominado "Genética ao Serviço da Justiça", o encontro, organizado pelo Ministério da Justiça e pela Universidade de Aveiro não foi conclusivo, mas não defraudou as expectativas do ministro da Justiça. Logo na sessão de abertura, António Costa defendeu que o debate deveria decorrer de forma "racional e serena" - apesar dos receios suscitados pela genética - e salientou as vantagens da existência de um banco de dados de ADN, para efeitos de identificação civil e criminal dos cidadãos.No final dos trabalhos, claramente satisfeito, o secretário de Estado da Justiça, Diogo Lacerda, dizia ao PÚBLICO que esta discussão deverá ficar concluída nesta legislatura. Lacerda garantiu que o executivo ainda não tem ideias definidas quanto às pessoas que, pelo menos numa fase inicial, deverão integrar a base de dados: se apenas os autores de crimes sexuais, como decorre já dos compromissos europeus do país (ver entrevista ao lado), se todos os condenados por crimes contra as pessoas. Mas considerou que a criação de um registo genético de toda a população é "inexorável".Ao longo do dia, várias foram as intervenções a sublinhar que aquilo que se discutia ali não era a investigação do património genético das pessoas, mas apenas a utilização de "ADN não-codificado", ou seja, zonas do genoma humano ["marcadores"] para as quais não se conhecem quaisquer associações, nem relativas ao carácter nem à propensão para contrair determinadas doenças relativas. Trata-se de utilizar apenas uma parte do ADN como uma espécie de "código de barras do indivíduo", que apenas o permite distinguir dos demais sem fornecer mais informação (ver texto nestas páginas). É por isso que este material genético também é conhecido por "ADN-impressão digital".Mas o processo também não está isento de riscos. Luís Souto, da Universidade de Aveiro, alertou que aquilo que hoje são amostras de ADN-impressão digital poderão amanhã, com o desenvolvimento da investigação, tornar-se fonte de outras informações. Por outro lado, reconheceram outros especialistas, o perfil genético do indivíduo é obtido através de elementos orgânicos onde consta todo o seu património genético. Importa garantir que ninguém espreita mais do que deve e que aquele material é destruído logo após a obtenção do ADN-impressão digital, para não ficar à disposição de tentações... E que são cumpridas as regras que procuram assegurar que a amostra do ADN não é adulterada - recorde-se que foi com base nesta inobservância que os advogados de O. J. Simpson convenceram o tribunal a recusar como prova as amostras de ADN recolhidas na cena do crime do duplo homicídio da ex-mulher e de um amigo do atleta.Ana Mafalda Duarte, subdirectora da PJ, foi quem mais se bateu pela criação do banco de dados. Insistiu na vantagem do ADN em relação a outros meios de identificação das pessoas e apontou vários casos em que foi por aquela via que, em Portugal e no estrangeiro, se descobriram os autores de crimes violentos. Aliás, esta é uma solução tecnológica praticada há dez anos pelo Laboratório de Polícia Criminal.No painel dedicado à ética, Alexandre Quintanilha, do Instituto de Biologia Molecular e Celular, da Universidade do Porto, observou que os testes genéticos limitam-se a apresentar probabilidades. "O que é uma certeza? Noventa, 95 por cento? Aqui entra o público a decidir, a ciência não dá a resposta", afirmou. Luís Archer, do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, defendeu, em nome pessoal, que não via objecções éticas a colocar à recolha de ADN para efeitos exclusivos de identificação, quando consentido pelo indivíduo em causa ou pedido pelo tribunal, com fins precisos.

All news